Bom, “nem só de modelo viverá o homem”, parafraseando o Novo Testamento ["nem só de pão viverá o homem" (Dt 8:3; Mt 4:4)], ou seja, nem só de coisas materiais é constituída nossa vida (apesar de um modelo no sentido abaixo não ter nada de material, mas o que importa é a metáfora!). Assim, nada melhor do que uma poesia para relaxar a mente, depois que fiquei aqui por quase 7 horas montando esta parte inicial do blogue:
Alberto Caeiro
II – O Meu Olhar
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…
Mais de Fernando Pessoa aqui.

5 comments
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1, 30 Junho, 2008 às 2:15 pm
Cícero Naves
Caro Adilson,
Achei a idéia do blog muito interessante. A introdução com esse poema do Fernando Pessoa caiu muito bem no contexto. Como estudantes da área de exatas, somos às vezes um pouco céticos em relação a questões imateriais que não sabemos como explicar, e nos sentimos, muitas das vezes, perdidos. Vale realmente muito a pena parar de analisar o nosso meio e começar a apenas observa-lo, sem críticas, sem interferência alguma, enxergando-nos como uma se suas partes, e não fora delas.
Um abraço!
1, 30 Junho, 2008 às 4:14 pm
Adilson J. de Assis
Olá Cícero! Obrigado por sua atenção… comentários são muito importantes para a melhoria de um trabalho, sendo parte fundamental em um blogue. Assim, fique a vontade para voltar aqui quando tiver vontade e deixar também comentários.
Com relação às questões “imateriais” elas estão mais presentes do que imaginamos na Engenharia Química. Entretanto, ao longo dos séculos XIX e XX [principalmente], “varremos para debaixo do tapete” tais aspectos, ficando somente com o lado objetivo e pragmático da ciência e da tecnologia. Mas, muitos dos conceitos e procedimentos do nosso dia-a-dia possuem fundamentos metafísicos, como por exemplo, o critério de mínimo/máximo em otimização da derivada ser igual a zero, teoria do contínuo em mecânica dos fluidos, para citar apenas dois. Um de meus interesses atuais é justamente explicitar tais conceitos implícitos, a fim de [tentar] mostrar que é impossível construirmos ciência sem metafísica, nos moldes atuais, por mais “doloroso” que isto possa ser aos cépticos e reducionistas.
A propósito da “observação”, penso ser o passo inicial para construir um bom modelo: quem não sabe observar bem, não saberá modelar bem! Este o motivo por ter escolhido este poema do Pessoa!
1, 30 Junho, 2008 às 5:58 pm
UCFilho
Adilson, parabéns pelo blog.
fica como sugestão o acréscimo de que além de um modelo ser uma imitação, uma mímesis de algo que está na natureza, de algo que pertence à realidade natural há também modelos que que representam projetos de que ainda não existem ou talvez nunca existirão, como, por exemplo, o modelo de um reator cuja construção ocorrerá ou não dependendo dos resultados da simulação e ou modelo que descreve os efeitos de uma guerra nuclear. Saudações, UCFilho
1, 30 Junho, 2008 às 7:11 pm
Adilson J. de Assis
Olá Ubirajara! Obrigado pelo comentário…
Mas, neste caso os modelos representam sim algo que está na natureza (reatores, guerra etc). A imitação não significa que seja “daquele reator ali em particular que estou vendo”, mas da “espécie” reator, que existe no Universal!
Como ilustração do que você colocou, talvez devêssemos listar modelos de “entidades” hipotéticas, tais como de uma suposta cadeia de relações em uma sociedade ou em um mercado de consumo, modelo da psique humana (como a Psicanálise) etc., que também podem ser expressos matematicamente.
1, 3 Julho, 2008 às 5:52 pm
Tati
Olá Adilson,
Entrei no blogue rapidamente e achei interessantíssimo, é sempre bom ver a motivação de professores que estão preocupados com o conteúdo acadêmico e também com o conteúdo e profundidade que devemos ter com a vida, pois esta engloba diversos campos do conhecer … Gostei da homenagem a Fernando Pessoa, este ano faz 120 anos de seu nascimento!!!
Um abraço, Tati